Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil.



O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)1 de 2017 - “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil” - pode ser considerado um marco histórico para as pessoas surdas, suas famílias, docentes, pesquisadoras e pesquisadores da área, pois, pela primeira vez, parte da sociedade é demandada a refletir sobre a temática.


A proposta de redação surpreendeu a maioria das 6.731.203 pessoas inscritas na 20ª edição do exame, os profissionais que dão suporte a esses participantes e, sobretudo, os especialistas na área de surdez e os membros da comunidade surda.


Os surdos formam uma comunidade – são mais de 10 milhões somente no Brasil –, com cultura própria e, sob o escopo do Bilinguismo, com língua própria, porém a formação educacional de surdos no Brasil. não depende apenas do reconhecimento da Libras como língua oficial. No livro Educação de Surdos: formação, estratégias e prática docente, a professora Francislene afirma que mesmo com o reconhecimento da relevância da Língua de Sinais na educação de surdos, a literatura especializada mostra que esse período foi interrompido por uma corrente educacional que não acreditava que a Língua de Sinais supria todas as necessidades linguísticas dessas pessoas, buscando, assim, a sua normalização, com a finalidade de torná-las ouvintes. Esse processo recorria ao reparo do aparelho auditivo das pessoas com surdez. Negou-se, pois, aos surdos, seus direitos de crescimento e avanço social, visto que não foram respeitadas suas particularidades cognitivas, linguísticas e sociais. Nesse período foi priorizada a língua oral.


Sabemos que reconhecimento da Língua de Sinais como língua natural da comunidade surda é um grande avanço. Contudo a educação formal nos moldes do bilinguismo (como é ofertada atualmente aos surdos) não é garantia de acesso ao Ensino Superior ou a uma formação profissional de qualidade.


A raiz dos desafios na educação de surdos é histórica.



No Brasil, em 2002, a Lei 10.436 oficializou a Língua Brasileira de Sinais e instituiu a presença de um tradutor ou intérprete de línguas em diversos espaços. Quatorze anos depois, mesmo com a legislação, ainda existem vários déficits no cumprimento do que foi estabelecido. No entanto, é preciso lembrar que já foi ainda pior.

As pessoas surdas foram recorrentemente excluídas do convívio social durante séculos. A atitude partia da ideia de que sem a linguagem oral não era desenvolvido o pensamento, ou seja, quem não escuta não fala e quem não fala não pensa. Sendo assim, eram privados da educação básica. A ideia se estendia a questão religiosa, para Igreja Católica os surdos não podiam se salvar por não conseguirem confessar seus pecados. Mulheres e homens com surdez não podiam receber herança familiar ou se casar.

Só no século XVII que as primeiras escolas de surdos surgiram na Europa, mudando parcialmente o contexto. No Brasil, ainda demorou mais um tempo. O Imperial Instituto de Surdos Mudos, hoje, Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), foi fundado em 1857 no Rio de Janeiro. Ao longo da jornada educacional de surdos, três correntes metodológicas ou filosóficas se destacam, são elas: o oralismo, a comunicação total e o bilinguismo.

Oralismo

O oralismo é um modelo clínico que parte do pressuposto que a surdez é uma deficiência que deve ser minimizada pelo estímulo auditivo, o equivalente a reabilitar para a “normalidade”. Defendido no Congresso Internacional de Educação de Surdos em Milão, Itália, em 1880, o método propunha desenvolver a fala em pessoas surdas. O congresso contou com a presença de muitos ouvintes (não-surdos).

A partir desse evento foi adotado o oralismo como forma de ensino para surdos. Contudo, a linguagem de sinais, que já estava em desenvolvimento antes disso, foi proibida em escolas de alguns países. Uma das primeiras medidas implementadas foi obrigar que os alunos sentassem sobre as próprias mãos durante a aula. O método oralista foi aplicado por mais de cem anos e resultou em vários surdos analfabetos marcados pela violência simbólica e institucional.

Comunicação Total

Quando o oralismo se mostrou ineficiente, foi adotado o modelo de comunicação total. O método consistia em usar qualquer que fosse a forma para resgatar a comunicação de pessoas surdas. Eram usadas as mímicas, os gestos, a linguagem de sinais e a leitura labial. Esse método não era contraposto ao oralismo, mas utilizado de forma complementar.

A comunicação total também não foi suficientemente efetiva, uma vez que fazia uso da oralidade junto aos demais tipos de comunicação de forma simultânea. Como a fala e a linguagem de sinais eram línguas distintas, o uso combinado das duas dificultava o processo de aprendizagem.

Bilinguismo

Contraposto aos dois métodos apresentados anteriormente, o bilinguismo promove o aprendizado através de duas línguas: a língua portuguesa (escrita) e linguagem brasileira de sinais (Libras). O canal visual é extremamente valorizado na educação de surdos por esse método, dando ênfase a Libras como língua que possui características próprias. O bilinguismo vem com grande força nesse nossos últimos dias. O problema é que, muitas vezes até por uma questão dos pais não aceitarem o seu filho enquanto surdo, eles tentam colocá-lo para aprender a falar.



Quais são os atuais desafios na educação de surdos no Brasil?


A realidade da educação brasileira que impõe a educação inclusiva com alunos surdos e/ou com outras deficiências nas salas do ensino regular apresenta um quadro de professores com falta de capacitação, tanto no ensino regular quando na educação especial.


São professores ouvintes que desconhecem a língua de sinais e trabalham em salas mistas (ouvintes e surdos):

- Desconhecem métodos específicos que favoreceriam a proficiência em Língua Portuguesa.


- Concebem a oralidade como condição essencial para o ensino da escrita.


- Utilizam materiais e recursos em sua maioria elaborados na língua oficial do país.

• Eles não favorecem o aprendizado porque são pensados por pessoas ouvintes,

• Os autores desses materiais desconhecem as dificuldades e o que pode realmente melhorar o trabalho e o os resultados de aprendizagem.


- Na maior parte das localidades ainda não existe o suporte do intérprete de Libras.

- Também há um déficit quando a sala de recursos que possibilitaria a complementação pedagógica.


A problemática ainda é maior que a simples diferença que todos denominam:

- A maioria dos alunos vem de famílias ouvintes que não conhecem a língua de sinais.


- Esses alunos só terão contato com sua língua natural a partir do convívio com seus pares ou quando ingressam numa escola onde existam educadores que utilizem a língua com eles.


- Isso acaba atrasando demais o desenvolvimento cognitivo e o conhecimento de mundo da criança.


- A proposta bilíngue assim como entendemos fica extremamente prejudicada devido a tantas dificuldades de acesso da criança à sua língua natural. É um prejuízo difícil de mensurar.


Existem crianças que nascem surdas, outras que adquirem a surdez após o nascimento o que pode ocorrer antes ou depois da aquisição da língua oral. Verificam-se então crises de identidade dentro do próprio grupo. São os surdos que utilizam somente a língua de sinais, os oralizados, os bilíngues e alguns que não foram instruídos numa língua e se

comunicam precariamente.


Crises familiares devido à descoberta da deficiência, que toma dimensões maiores na medida em que se percebem as consequências do problema:

- A surdez é diagnosticada.


- Consequentemente a fala não ocorrerá naturalmente.


- A compreensão da criança fica comprometida: ela não entende o que se passa a sua

volta.


- No ambiente escolar: dificuldades de aprendizagem desde as séries iniciais.


- Problemas comportamentais: desatenção, hiperatividade, rebeldia, falta de limites.

- Frustrações:

• Dos pais que atravessam momentos de angústia e insegurança.

• Dos filhos que percebem que não correspondem às expectativas de seus pais.


O trabalho pedagógico ainda é pautado em modelos de ouvintes. A representação dos membros da comunidade surda ainda é pequena e nem sempre refletem as verdadeiras necessidades do grupo. O que seria um trabalho de inclusão acaba sendo um processo que exclui.





Download do livro ''Educação de Surdos: formação, estratégias e prática docente'': https://static.scielo.org/scielobooks/m6fcj/pdf/almeida-9788574554457.pdf


fontes:

https://www.uninassau.edu.br/noticias/educacao-de-surdos-entenda-os-desafios-no-brasil

https://institutoitard.com.br/desafios-para-a-formacao-educacional-de-surdos-no-brasil/

https://siteantigo.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/educacao/desafios-da-educacao-dos-surdos/41194




ADM. Ana Beatriz

Vip Reforço Preparatório

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